Junta de Freguesia
Vera Cruz
 
 
 
 
 
Porquê a Vera Cruz?
O nome “Vera cruz” ou “Verdadeira Cruz”, é uma designação cristã, com uma tradição de muitos séculos, a qual quer distinguir a Cruz autêntica entre as demais.


Vera-Cruz em Aveiro

Desde os tempos da Reconquista Cristã, a região de Aveiro estava dentro dos limites da Diocese de Coimbra que, no século XVI, para o norte, se estendia até ao rio Antuã, que corre ao lado de Cambra, de Oliveira de Azeméis e de Estarreja.

A partir de 1545, presidiu à Diocese D. Frei João Soares, natural de S. Miguel de Urrô (Penafiel), eremita de Santo Agostinho e mestre de teologia, que aos dezasseis anos de idade professara em Salamanca e que, mais tarde, seria confessor e pregador de el-Rei D. JoãolII e mestre dos Príncipes, sendo já Bispo de Coimbra, participou no último período do Concílio de Trento, a partir de 1561. Terminado este em Janeiro de 1564, o Prelado, antes de regressar à sua Sé, foi em peregrinação ao Sepulcro de Cristo, em Jerusalém, quiçá em penitência dos seus pecados públicos e escandalosos em questões de imoralidade. Por essa altura e durante três anos, também o franciscano Frei Pantaleão de Aveiro esteve na Terra Santa, com a finalidade de igualmente venerar os lugares santificados pela presença de Cristo, em especial o sítio em que fora erguida a "Vera Cruz" - como ele diz; tendo voltado à Pátria, redigiu pormenorizadamente o roteiro da demorada viagem, que intitulou "Itinerário da Terra Santa e suas “Particularidades". . Entretanto, a população de Aveiro crescera invulgarmente, graças ao comércio do bacalhau e do peixe que atraíra quer gentes de outras partes do Reino, quer ainda ingleses e holandeses - e ao tráfico de sal, cereais, legumes, vinho, fruta, tecidos, esparteira, ferro, papel, vidro, pólvora, linho, madeira, etc.. Por isso, elaborado o rol das pessoas de comunhão que havia na vila de Aveiro, concluiu-se que o seu número somava, ao todo, 11 365 almas, distribuídas por cerca de 2 000 famílias, "afora muita gente estrangeira que nela de contínuo reside" - o que, feito o cômputo percentual, atingiria a soma aproximada de 15 000 moradores. O Bispo achou excessiva aquela população para uma só paróquia e, por provisão de la de Julho de 1572 (quatro meses antes de falecer), parcelou o território em quatro freguesias: São Miguel, composta pela então vila muralhada e nobre e pelo bairro do Albói, a ocidente; Espírito Santo, que se estendia para sul das muralhas e nela se encontravam incluídos o Cimo de Vila, Vilar, São Bemardo, e parte da Presa e da Quinta do Gato; Nossa Senhora das Candeias ou da Apresentação e Vera-Cruz, a norte do canal central da Ria, aquela para poente e esta para nascente. O Bispo, no terceiro domingo de Setembro do mesmo ano, viria a Aveiro para, na igreja matriz de S. Miguel, entregar a cada um dos três novos párocos, já nomeados, um livro para o registo dos baptismos, casamentos e óbitos, bem como uma caixa de estanho com os santos óleos.

À freguesia da Vera-Cruz ficou então a pertencer o território compreendido entre a ponte das Almas, no canal central, a Rua Larga e a Rua do Vento até ao fim, a ria, o ribeiro das Barrocas, e ainda parte dos lugares da Forca, da Presa e da Quinta do Gato, prosseguindo o limite pelo canal do Cojo até à dita ponte das Almas. Desta forma, tinha como confinantes as freguesias de Nossa Senhora da Apresentação a ocidente, de Esgueira a norte, e de S. Miguel a sul. Contudo, no foro judicial, quase todo o lugar de Sá pertencia a Ílhavo.

Qual teria sido o motivo do parcelamento de Aveiro? Teria sido apenas o número exagerado de habitantes da única freguesia de S. Miguel? Ou teria também pesado no espírito do Bispo certa fricção com o prior da matriz, que era o Padre Dr. João da Costa, erudito humanista, para lhe retirar prestígio social e rendimento material, uma vez que a unidade e o tamanho da paróquia tinham nisso influência e o priorado era bastante lucrativo? Fosse como fosse, a divisão seria moral e espiritualmente benéfica para a população de Aveiro.

Porquê o nome de "Vera-Cruz" para designar esta freguesia? Nunca encontrei nenhum apontamento que respondesse a tal pergunta, mas podemos fazer conjecturas. Além da natural devoção de D. Frei João Soares e da razão geral, exposta no decorrer das palavras precedentes, acrescento o seguinte:

a) - Continuava a existir em Coimbra, com extraordinário relevo no meio local e nacional, o secular Mosteiro de Santa Cruz, dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho; todavia, embora a Ordem a que pertencia D. Frei João Soares não fosse a mesma, a tradição religiosa, a vida canónica e os hábitos monacais tinham idêntica raíz, qual eram a regra e a doutrina do Doutor de Hipona.

Fundado em 1132, o referido cenóbio logo alcançou grande prestígio e singular reputação, pelo ambiente de virtude que nele se vivia e pelo grau de cultura que ele rapidamente atingia. No século XVI, a partir de 1556, foram se reunindo à sua volta quase todas as casas dos Cónegos Regrantes, espalhadas pelo País, de tal forma que, em 1630, a Congregação abrangia vinte mosteiros.

Uma comunidade cristã em Aveiro com o título de Vera-Cruz seria uma espécie de prolongamento sentimental da comunidade de Santa Cruz de Coimbra e da freguesia desse nome.

b) - Outro motivo que teria levado D. Frei João Soares a escolher o nome de Vera-Cruz para uma das novas freguesias de Aveiro seria o facto de no seu tempo, na freguesia de Santa Cruz, da cidade de Coimbra, se realizarem grandes e solenes procissões, por altura das ladainhas de Maio e da festa da "Invenção" ou descoberta da Santa Cruz.

E a tais procissões se dava tanta importância que, por serem da iniciativa do Mosteiro, se chegou a obrigar os moradores da cidade a participarem nelas-o que deu origem a protestos da parte de outras freguesias urbanas. Tais solenidades públicas também se verificavam em muitas terras portuguesas, de modo que se tornaram vulgares entre o povo.

c) - O terceiro motivo, que me ocorre, regista-o Rangel de Quadros, quando diz, com algum fundamento, não totalmente apodítico que, ao contrário do que aconteceu com a freguesia de Nossa Senhora da Apresentação - não há registo de que o culto paroquial houvesse começado a exercer-se noutra capela de diferente titular; por isso, o citado aveirógrafo entendia que já existiria em 1562 um pequeno templo com a invocação da Vera-Cruz. Na verdade, pode comprovar-se tal asserção por um assento no livro de óbitos da freguesia de S. Miguel, onde se lê que, no dia um de Novembro seguinte, "faleceu António Rodrigues, ferrador, morador na rua da Vera-Cruz"; e concluía aquele autor:
- "E era mais provável que o templo tivesse dado o nome ao sítio ou à rua, do que estes ao templo".

A igreja definitiva, sita no Largo de Maia Magalhães, popularmente chamado "Largo da Vera-Cruz", estava a construir-se em 1576 e ainda em 1600. Nos finais século XIX, dado o seu adiantado estado de ruína, o edifício acabou por ser demolido, em obediência à decisão de Dezembro de 1876, para em seu lugar se edificar um novo templo; tendo-se interrompido a obra por falta de recursos financeiros, as suas paredes, já na altura da cimalha,foram apeadas em 1945, pelo camartelo municipal. Entretanto, a sede da paróquia, a administração dos sacramentos e o culto litúrgico haviam sido transferidos provisoriamente, enquanto durasse a construção, para a vizinha igreja de Nossa Senhora da Apresentação. E assim tudo ficou... até hoje... e para durar.

A velha igreja era vasta e de três naves, formadas com cinco arcos de cada lado, sendo semelhante às de Salreu e de Angeja. O tecto da capela-mor, que continuava para a sacristia que lhe ficava por trás, desenvolvia-se em abóbada de pedra calcária e fora enriquecido com florões e figuras alegóricas, na mesma pedra, das quais restam algumas peças no Museu de Santa Joana. Encostadas às colunas em que assentava o arco-cruzeiro, estavam, sobre peanhas, as estátuas dos Apóstolos S. Pedro e de S. Paulo, que hoje também estão no mencionado Museu. O dito arco era ornado com uma bonita sanefa com florões dourados, executada em 1846, após a demolição do templo, foi vendida para a igreja de Salreu. O retábulo principal, que já não era o primitivo, foi transferido para a igreja de Nossa Senhora da Glória, onde se encontra. A fachada principal e a torre, com cunhais de pedra, eram muito simples e sem grande carácter artístico.

Além do altar-mor, o templo tinha os seguintes altares:
-junto ao arco-cruzeiro, o do Senhor do Terço ou do Senhor Jesus do Bendito e o de Nossa Senhora da Luz; no corpo da igreja, o das Almas ou de Nossa Senhora dos Anjos, a que correspondia, no lado oposto, a capela do Santíssimo Sacramento.

Uma vez implantado o Regime Liberal, entendeu-se reduzir para duas as quatro freguesias da cidade de Aveiro. Desta forma, por alvará de 11 de Outubro de 1835, o governador civil do Distrito, José Joaquim Lopes de Lima, constituiu, a sul do canal central da Ria, a freguesia de Nossa Senhora da Glória que reuniu o território das de S. Miguel e do Espírito Santo, e, a norte do canal, a freguesia da Vera-Cruz, sendo extinta a de Nossa Senhora da Apresentação; o bairro de Sá foi incorporado nesta última.


"Porquê Vera-Cruz?
O motivo essencial encontramo-lo na devoção dos cristãos, e particularmente do povo português, à Paixão e Morte de Jesus Cristo, simbolizadas na Cruz.”
Mons. João Gonçalves Gaspar
 
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